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É mais fácil imaginar um futuro com pessoas morando em Marte do que um futuro com equidade e sem preconceito de gênero

Em 1969, a humanidade pisou na Lua. Em 2024, foguetes privados decolam com turistas espaciais. Veículos autônomos, que pareciam uma realidade distante, já são comuns em alguns lugares do mundo. A ficção científica imaginou tudo isso décadas antes de acontecer e o futuro, de certa forma, seguiu o roteiro. Mas quando se trata de relações de gênero, esse roteiro parece ter travado.


É curioso, e ao mesmo tempo trágico, notar como a nossa capacidade de engenharia tecnológica supera vastamente a nossa imaginação social. Enquanto a ficção científica nos entregou carros voadores, dobras espaciais e cidades em Marte, ela na maioria das vezes falhou em nos devolver uma imagem de sociedade igualitária.


Imaginamos colônias interplanetárias, inteligências artificiais conscientes e teletransporte, mas ainda vivemos em um mundo onde mulheres precisam brigar pelo direito de existir fora dos papéis que lhes foram atribuídos há séculos.


E o mais perturbador: parte dos homens mais jovens, que cresceram com a internet, acessando toda a informação do mundo na palma da mão, carregam visões sobre gênero mais conservadoras do que seus avós.


Como chegamos aqui? E, mais importante: por que o futuro que imaginamos raramente inclui uma evolução social à altura da evolução tecnológica?


O futuro que imaginamos — e o que esquecemos de incluir

A ficção científica sempre foi um laboratório de futuros possíveis. Desde Julio Verne prevendo submarinos até Philip K. Dick antecipando vigilância em massa e realidade virtual, o gênero literário e cinematográfico sempre conseguiu antecipar transformações tecnológicas.


No entanto, quando olhamos para os papéis de gênero nesses futuros imaginados, algo chama atenção: em grande parte das obras, o futuro tecnológico é sofisticado, mas o futuro social é surpreendentemente familiar. Salvadores, exploradores e conquistadores são predominantemente homens e mulheres ainda são definidas por suas relações afetivas com eles. A comunidade LGBTQIA+ permanece, em grande parte, como um vácuo narrativo e a plena normalização da diversidade raramente aparece como algo banal e resolvido. Em galáxias distantes e sociedades pós-apocalípticas, as hierarquias de gênero dos séculos passados seguem operando, apenas com figurino diferente.


Quando obras ousam colocar mulheres complexas no centro da narrativa, não como ornamento, mas como protagonistas plenas de suas próprias histórias, elas são frequentemente tratadas como exceção notável, digna de debate. A raridade da exceção diz muito sobre a regra.


O problema não é apenas estético. As histórias que contamos sobre o futuro moldam as expectativas que temos sobre ele. Se o futuro que imaginamos continua reservando às mulheres o papel de coadjuvantes e aos homens o papel de salvadores do universo, estamos, coletivamente, construindo um teto para onde podemos chegar como sociedade.

A tecnologia evoluiu, mas a família tradicional é a mesma
A tecnologia evoluiu, mas a família tradicional é a mesma

O contrato de gênero que está se desfazendo

Por séculos, o chamado "contrato de gênero" funcionou assim: homem provedor, mulher cuidadora. O mundo mudou e esse contrato caducou, mas ainda há uma grande resistência em aceitar esse fato. De um lado, mulheres que, impulsionadas pela independência econômica e pelo cansaço histórico, recusam-se a assinar contratos de submissão. Do outro, uma parcela considerável de homens que, diante da perda de privilégios que antes eram garantidos pelo simples fato de existirem, recuam para trincheiras de um conservadorismo reacionário.


Nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 1970, as mulheres entraram massivamente no mercado de trabalho, conquistaram acesso à educação superior em proporções maiores do que os homens em boa parte dos países desenvolvidos, ganharam direitos reprodutivos e autonomia financeira, deixando de depender economicamente dos homens para sobreviver. No Brasil, as mulheres já são as principais provedoras em 49,1% dos lares e igualando-se quase ao número de homens chefes de família (50,9%), segundo o Censo 2022.


Mas a expectativa de que também fossem as principais cuidadoras do lar e dos filhos permanece. Sem que homens passassem a se responsabilizar também pelas tarefa do lar, as mulheres passaram a acumular dois turnos: um no mercado de trabalho, outro em casa. 

Segundo estudo feito pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia da Desigualdade (Made) da Universidade de São Paulo (USP) elas cumprem 21,3 horas semanais em trabalhos domésticos, ante 8,8 horas entre os homens. O resultado é que, embora dediquem cinco horas a menos por semana ao trabalho remunerado fora de casa, somando tudo, as mulheres acabam trabalhando oito horas a mais por semana, ou 16% mais do que os homens: são 58,1 horas para elas e 50,3 horas para eles.


A queda global da taxa de natalidade, frequentemente interpretada como um problema econômico, é também um sintoma desse conflito. Em sociedades onde a divisão do trabalho doméstico e parental permanece profundamente desigual, a maternidade se torna um fator de empobrecimento e estagnação profissional para as mulheres. O Relatório Global Gender Gap 2025, do Fórum Econômico Mundial, revela que, em países com alta desigualdade de gênero, as mulheres estão cada vez mais relutantes em "firmar contratos" que percebem como estruturalmente desfavoráveis.


Enquanto ter filhos representa para os homens, em geral, um acréscimo de status social sem prejuízo profissional, para as mulheres é frequentemente o oposto: salários menores, progressão travada, julgamentos sobre dedicação ao trabalho e acúmulo integral de responsabilidades domésticas. Pesquisas mostram que homens casados ganham mais e vivem mais do que homens solteiros. Enquanto isso, mulheres casadas com homens ganham menos e têm menos qualidade de vida do que mulheres solteiras e do que homens.


Preocupados com a falta de crescimento populacional, diversos países passaram a adotar políticas pró natalistas baseadas em incentivos financeiros. Governos da Rússia, Polônia, Estados Unidos e outros lugares oferecem bônus em dinheiro para quem tem filhos, enquanto o governo da França passou a enviar cartas a todos os cidadãos de 29 anos para incentivá-los a considerar a parentalidade. Porém, nenhuma política pró-natalidade funcionará enquanto não houver mecanismos reais de suporte: compartilhamento genuíno das responsabilidades parentais, licenças-paternidade justas e obrigatórias, creches públicas universais, proteção trabalhista efetiva para mães, entre outros. Estimular a natalidade sem transformar as condições em que ela ocorre é apenas transferir o ônus para as mulheres.


Quando as mulheres dizem chega: o movimento 4B e além

Na Coreia do Sul, um dos países ricos com a maior lacuna de gênero, surgiu entre 2015 e 2019 o movimento feminista 4B: bihon (sem casamento), bichulsan (sem filhos), biyonae (sem namoro) e bisekseu (sem sexo com homens). O movimento não é apenas uma rejeição de relacionamentos heterossexuais, é uma recusa explícita de estruturas patriarcais e das desigualdades domésticas que perpetuam.

Interpretado por alguns como uma declaração de ódio aos homens, o 4B refleta, na verdade, uma avaliação racional de um sistema desigual: que uma parcela significativa de mulheres chegou à conclusão de que os custos de se relacionar com homens, dentro das estruturas disponíveis, superam os benefícios.


Em contrapartida, surgem movimentos conservadores que buscam forçar a reversão dessas tendências: o fenômeno trad wife nos EUA, grupos pró-natalidade na Rússia e na Hungria, organizações religiosas e políticas que mobilizam contra o que chamam de "ideologia de gênero" no Brasil e em outros países. Esses movimentos não são apenas um backlash cultural, são, muitas vezes, politicamente organizados e financiados, com o objetivo explícito de reverter conquistas sociais das últimas décadas.


Quando passam a recusar esse arranjo, seja não se casando, seja não tendo filhos, seja simplesmente exigindo parcerias verdadeiramente igualitárias, parte da sociedade reage com incompreensão, hostilidade ou nostalgia pelo modelo anterior.


A crise da masculinidade e a polarização política

Uma das transformações que se mostra cada vez mais explícitas recentemente é a crescente divergência ideológica entre jovens homens e jovens mulheres. Dados mostram que há uma lacuna crescente e sem precedentes entre as posições ideológicas de homens e mulheres de 18 a 29 anos, em países diversos. Enquanto mulheres jovens migram massivamente para o espectro progressista, uma parcela significativa de homens jovens se desloca em direção ao conservadorismo ou a discursos de "masculinidade reacionária". 



Em eleições nos EUA em 2022 e 2024, mulheres jovens votaram em candidatos democratas em margens de 2 para 1 em relação a homens jovens. Na Europa, partidos de extrema-direita atraem proporções desproporcionais de homens jovens, enquanto mulheres se alinham a partidos verdes e social-democratas. No Brasil, As mulheres se posicionaram mais à esquerda (20%), quatro pontos percentuais a mais do que os homens (16%), segundo a pesquisa Juventudes: Um Desafio Pendente, realizada em 2025, com jovens de 15 a 35 anos, pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung no Brasil (FES Brasil).


Parte desse fenômeno pode ser explicada pela ascensão da "machosfera", um ecossistema de comunidades online que inclui movimentos como MGTOW (Men Going Their Own Way), comunidades de incels (celibatários involuntários) e influenciadores como Andrew Tate, que pregam que a masculinidade está "sob ataque" e que homens devem buscar dominação, rejeitar vulnerabilidade emocional e resistir a qualquer ideia de equidade de gênero. Esses influenciadores atingem adolescentes em um momento crítico de formação de identidade e os algoritmos das plataformas amplificam esse alcance.


Jovens são mais conservadores que seus avôs

Uma pesquisa do King's College de Londres trouxe dados que deveriam alarmar qualquer pessoa comprometida com avanços sociais. Os homens que hoje têm entre 14 e 29 anos possuem visões mais conservadoras sobre papéis de gênero do que homens de 62 a 80 anos.

  • 33% dos homens jovens acreditam que o homem deve ter a palavra final em decisões importantes da família (vs. 17% dos mais velhos);

  • 31% acreditam que esposas devem obedecer a seus maridos (vs. 13% dos mais velhos);

  • 24% acreditam que mulheres não devem parecer muito independentes (vs. 12% dos mais velhos);

  • 21% acreditam que uma mulher "de verdade" não deveria iniciar o sexo (vs. 7% dos mais velhos);

  • 21% acreditam que homens não deveriam dizer "eu te amo" para amigos (vs. 8% dos mais velhos).


Esses números não são apenas estatísticas sobre comportamento social. São radiografias de um retrocesso. Gerações que tiveram acesso irrestrito à informação, que cresceram com mais representatividade e debate público sobre equidade, mostram visões mais rígidas e hierárquicas sobre gênero do que aquelas que cresceram em décadas de menor abertura social. Isso demonstra que a informação, sozinha, não produz empatia e que o acesso às redes sociais, longe de ampliar horizontes, pode ter se tornado um vetor eficiente de radicalização.


Quando o "não" custa a vida: violência como resposta à autonomia feminina

À medida que mulheres ganham autonomia, voz e espaço, uma parcela crescente de homens responde não com adaptação, mas com agressão. A violência de gênero não é apenas um reflexo de machismo difuso: é, em muitos casos, uma tentativa de reafirmar controle sobre mulheres que ousaram existir fora dos papéis a elas destinados.


Os números são devastadores. Segundo relatório conjunto da ONU Mulheres e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), 85 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em todo o mundo em 2023. Desse total, 60%, mais de 51 mil, foram assassinadas por parceiros íntimos ou membros da família. Isso equivale a 140 mulheres mortas por dia, ou uma mulher a cada dez minutos. Nenhuma região do planeta está excluída desse mapa.


No Brasil, os dados revelam uma tragédia que só se aprofunda. O país registrou, em 2024, 1.492 feminicídios, o maior número desde a criação da lei que tipifica o crime, em 2015. Oito em cada dez vítimas foram mortas por companheiros ou ex-companheiros. 64,3% dos crimes ocorreram dentro de casa. 97% das vítimas foram assassinadas por homens. O lar, que deveria ser o espaço mais seguro, é o mais perigoso para as mulheres brasileiras.


O mesmo anuário aponta que as tentativas de feminicídio cresceram 19% em 2024, com 3.870 casos registrados. As agressões em contexto de violência doméstica cresceram 9,8%. As ameaças cresceram 16,5%, somando quase 779 mil casos em um único ano. O stalking, perseguição insistente, registrou o maior crescimento: 34,5%, com 77 mil ocorrências. E os casos de violência sexual bateram recorde histórico: 87.545 estupros registrados em 2024, um a cada seis minutos. Em treze anos, o número de vítimas cresceu 91,5%. As vítimas são, em sua esmagadora maioria, meninas negras com até 13 anos, estupradas por familiares ou conhecidos dentro de casa.


É preciso dizer com clareza o que esses números representam: não são anomalias de indivíduos isolados. São sintomas de uma cultura que ainda percebe a mulher como propriedade e que pune o "não". A mulher que rejeita um homem, que termina um relacionamento, que se recusa a obedecer, que conquista independência e não precisa mais dele: é ela quem mais corre risco. A violência não acontece apesar da autonomia feminina, acontece como resposta a ela.

O futuro não chegará sozinho

Há um paralelo perturbador entre o que a ficção científica faz com o futuro e o que a sociedade faz com a equidade de gênero: trata ambos como questões que "se resolverão sozinhas" com o tempo. Como se o progresso fosse uma força natural, inevitável e unidirecional e bastasse esperar.


Não é. O futuro é construído ativamente e deliberadamente pelas histórias que contamos, pelas políticas que adotamos, pela educação que oferecemos e pelos comportamentos que normalizamos. Quando a ficção científica replica papéis de gênero do século pasado em cenários de ficção do século XXII, ela não está apenas sendo preguiçosa criativamente: está sinalizando que a imaginação coletiva tem um limite, e que esse limite é o patriarcado.

A boa notícia é que essa imaginação pode ser expandida. É possível imaginar futuros onde identidade de gênero não é uma gaiola: onde homens podem ser vulneráveis, onde mulheres podem ser poderosas sem precisar pedir licença, onde pessoas LGBTQIA+ existem como parte integrante do tecido social, e não como nota de rodapé.


Segundo estimativas recentes do World Economic Forum, divulgadas nos relatórios do Global Gender Gap Report de 2024 e 2025, a equidade de gênero ainda é uma promessa que deverá ser adiada por cinco gerações: pode levar entre 123 e 134 anos para ser alcançada nas esferas política e econômica.


Se o futuro que imaginamos determina o futuro que construímos, então imaginar futuros mais equitativos, e agir sobre eles agora, não é romantismo, é a única estratégia racional que temos. Isso exige a aceleração não apenas das leis, mas também a imaginação social de histórias alternativas. E é urgente converter essa espera em ações imediatas para que o futuro igualitário não permaneça restrito ao campo da ficção.


A evolução não volta atrás, mas precisa de protagonistas

A história da humanidade é a história de um caminho sem volta. Houve escravidão e foi abolida, houve teocracia absoluta e cedeu, houve apartheid e ruiu. O progresso raramente é linear: há retrocessos, reações, momentos em que parece que dá passos para trás, mas a direção geral, olhando para a longa duração, é sempre a expansão dos direitos, da liberdade e do reconhecimento da dignidade humana.


Apesar das conquistas das mulheres nas últimas décadas fazerem parte desse movimento irreversível, elas foram arrancadas com luta, com coragem e com o preço altíssimo que muitas pagaram e ainda pagam. Para que não haja retrocesso, é preciso continuar resistindo. No fim, a questão não é se esse avanço continuará: é se ele acontecerá de forma mais fácil ou mais dolorosa, com mais ou menos resistência, com ou sem a participação ativa dos homens.


E aqui está o ponto central que é preciso compreender esse movimento não se trata de rebaixar o homem. Trata-se de elevar a mulher ao pleno reconhecimento de sua humanidade. Não é uma disputa de soma zero, onde o ganho de uma parte significa a perda da outra. É uma equação de soma positiva: sociedades com maior equidade de gênero têm melhor desempenho econômico, menor índice de violência e maior bem-estar coletivo.


O sistema que precisamos não é aquele que obriga ou pressiona mulheres a retornarem a papéis de submissão. É aquele que cria condições reais para que a escolha, qualquer que seja, não as prejudique. Isso exige redes de apoio comunitárias, políticas empresariais que tratem maternidade e paternidade com o mesmo peso, serviços públicos que garantam segurança, saúde e assistência. E, fundamentalmente, homens que se reconheçam como parte ativa dessa solução, não como espectadores ou vítimas do processo.


Homens que acolhem a vulnerabilidade não são fracos, são corajosos. Homens que dividem a carga doméstica não perdem autoridade, ganham parceria. Isso não é um sacrifício, é uma libertação dos papéis que também aprisionam os homens em uma masculinidade estreita, solitária e cada vez mais incompatível com o mundo que construímos.


O futuro que vale a pena imaginar e construir não é aquele onde foguetes chegam a Marte enquanto, aqui na Terra, ainda debatemos se mulheres devem obedecer a seus maridos e são mortas quando não o fazem. É aquele onde chegamos às estrelas juntos, como iguais, com responsabilidades compartilhadas e respeito mútuo, com a mesma criatividade que usamos para imaginar o impossível aplicada, finalmente, ao necessário.


A ficção científica nos ensinou que o futuro começa como uma ideia. Está na hora de a equidade de gênero sair das páginas do impossível e entrar no roteiro do que decidimos construir, com homens e mulheres escrevendo esse roteiro juntos.

 
 
 

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