Reencantar o mundo
- Vivian Vianna
- há 5 dias
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Atualizado: há 5 dias
Feche os olhos e imagine a cena de um filme ou desenho animado em que o personagem penetra em uma floresta encantada. A névoa se dissipa lentamente, um feixe de sol penetra por entre as folhas de uma árvore que dançam com o vento e se reflete nas gotas de orvalho e nos finíssimos fios de teia de aranha que pendem dos galhos. O ar é tomado por pequenos pontos de luz que cintilam. Uma flor desabrocha, rodeada por borboletas coloridas, um sapo surge detrás de um cogumelo que parece ter acabado de brotar. Libélulas e outros insetos voejam sobre um lago. Beija-flores pairam no ar e o som dos pássaros compõe a trilha sonora suave. Tudo isso nos faz ter a certeza de que seres mágicos, como fadas e gnomos, habitam algum cantinho dali. É possível perceber a magia no ar.

Esse cenário tão típico de contos de fada e que parece presente apenas na nossa imaginação é o que passei a ver todos os dias, quando me sento pra tomar café da manhã na varanda de casa, desde que saí de São Paulo e vim morar na Serra da Mantiqueira. Isso me fez refletir sobre como a magia que no nosso imaginário está registrada como algo místico, na verdade está em toda a vida que existe ao nosso redor.
No entanto, preferimos apagá-la. Com o passar do tempo, passamos a viver em ambientes cada vez mais estéreis e assépticos, deixando de valorizar e de nos maravilhar com a mágica que é a vida. Tudo o que é naturalmente vivo ou que remete à vida passou a ser visto como impuro ou incômodo. A abelha que entra pela janela, o galho do arbusto que cresce “torto”e precisa ser podado. Buscamos incessantemente o que nos parece inorgânico e tecnológico, da estética das nossas casas ao modo como nos relacionamos e trabalhamos.
Linhas retas, cores neutras, simetria, padronização. Essa busca incessante pelo sintético não é por acaso, é o pilar do que chamamos de progresso.
A lógica da separação
Para o mestre quilombola Nego Bispo, desenvolvimento é sinônimo de desconectar. É a tentativa de humanizar e tornar sintético tudo o que é original, uma lógica fundada na separação e naquilo que ele chamava de cosmofobia: o medo e a distância que impomos entre a humanidade e o restante da natureza e da vida em sua forma indomada, que escapa ao controle. Ele associa essa postura ao seu conceito de humanismo, que nasce da recusa em viver misturado e atravessado pelo que é vivo: "A humanidade é contra o envolvimento, é contra vivermos envolvidos com as árvores, com a terra, com as matas."
Fica cada vez mais evidente que as múltiplas crises que vivemos — climática, de saúde mental, de solidão, de sentido — surgem por esse afastamento, causado pela percepção de que humanos são separados e superiores à natureza e a tudo que é diferente de si.
Quando isso acontece, tudo ao redor passa a ser reduzido a recurso, paisagem ou obstáculo, e contamina até mesmo os mais bem intencionados projetos de desenvolvimento sustentável ou empreendedorismo de impacto. A sustentabilidade, quando ainda presa à lógica do desenvolvimento, apenas tenta minimizar danos sem questionar a cosmofobia que está na raiz do problema.
O filósofo indígena Ailton Krenak oferece outra chave ao falar sobre a urgência que temos em reencantar o mundo. Para ele, o mundo encantado não é algo mágico no sentido fantasioso, mas aquele em que a vida é vivida como experiência sensível, relacional e cheia de sentido. Um mundo em que rios, florestas, humanos e outros seres não ocupam lugares hierarquizados, mas coexistem numa mesma trama, onde natureza e cultura não precisam ser separadas para serem compreendidas.
Desenvolvimento x reencantamento
Quando observamos com atenção, fica evidente que a ideia de desenvolvimento que aprendemos a desejar exige distância, aceleração, otimização e controle, enquanto o encantamento nasce da proximidade, da escuta, do imprevisível e de um tempo que não se mede apenas por produtividade. O primeiro fragmenta, compartimenta e especializa; o segundo integra, mistura e devolve complexidade ao que foi simplificado demais. Não se trata de recusar o avanço, mas de questionar a direção para a qual estamos caminhando e o que deixamos para trás nesse percurso.
Na busca por desenvolvimento, a eficiência se torna mais importante que a beleza. A produtividade mais valiosa que o cuidado. O crescimento mais urgente que a regeneração.
O desencantamento do mundo não foi um acidente histórico. Foi um projeto deliberado da modernidade, que precisava transformar tudo em objeto manipulável, mensurável, comercializável. Florestas viraram recursos naturais. Rios se tornaram fontes hídricas. Animais foram reduzidos a biomassa. E nós mesmos nos fragmentamos em capital humano, recursos humanos, força de trabalho.
Vivemos em escritórios climatizados onde não sentimos o vento no rosto. Trabalhamos sob luz artificial que nos desconecta dos ciclos do sol. Nos alimentamos de produtos ultra-processados que não lembram em nada a terra de onde vieram. E nos perguntamos por que nos sentimos tão ansiosos, tão desconectados, tão vazios.
O encantamento, por outro lado, é o reconhecimento de que somos parte de algo maior, de que nossa existência só faz sentido em relação. É a capacidade de se maravilhar com a complexidade da vida, de respeitar os mistérios que não podemos controlar, de valorizar o que não pode ser quantificado, o inesperado e o orgânico. Onde há vida pulsante, há "sujeira", há ciclos de morte e renascimento, há o incontrolável. Ao tentarmos limpar a vida para torná-la produtiva, acabamos por desencantá-la.
Como reencantar o mundo
Reencantar não é um exercício de nostalgia, mas um movimento urgente de futuro e uma escolha consciente de nos reconectarmos com aquilo que nos torna plenamente vivos. É uma mudança de eixo, um deslocamento do olhar e um caminho que passa por três dimensões fundamentais.
1 - Reconexão com a natureza: a via da regeneração
Reencantar começa por reconhecer que não somos visitantes da natureza, mas parte dela. Nosso corpo responde aos ciclos do sol, da lua, das estações. Nossa saúde mental depende do contato com o verde, com a terra, com o ar livre. Estudos mostram que caminhar em uma floresta reduz cortisol, melhora a imunidade e restaura a capacidade de atenção. Para ficarmos saudáveis precisamos de alimentos de verdade, que carregam os nutrientes da terra.
Aqui, temos que ir além da "sustentabilidade" passiva, assumindo a natureza, como cenário ou tendência, e assumir uma postura regenerativa, onde nossas ações devolvam vida aos ecossistemas em vez de apenas diminuir o ritmo da destruição.
Regenerar nossa relação com a natureza começa com a criação de pequenos espaços em nossas vidas para esse encontro. Pode ser cultivar uma horta, mesmo que pequena, e se envolver com o ritmo das plantas. Pode ser criar um jardim comunitário no bairro para atrair abelhas e borboletas ou reconhecer os pássaros que visitam nossa janela. Pode ser preparar e saborear uma refeição colorida com alimentos frescos. Cada gesto de atenção ao mundo natural é um gesto de reencantamento.
2 - Reconexão com o humano: a via da criatividade
Fomos feitos para imaginar, criar, nos expressar, experimentar o mundo com o corpo, e não apenas para responder estímulos e cumprir funções. Mas o mundo do desenvolvimento transformou criatividade em "inovação disruptiva", arte em "conteúdo", expressão em "personal branding".
Nosso corpo foi moldado por milhões de anos de evolução para se mover de formas variadas, usar as mãos, dançar, cantar. Nossa mente foi feita para contar histórias, resolver problemas complexos, contemplar mistérios. Quando ignoramos isso, o desencantamento se instala de forma silenciosa, afetando nossa saúde emocional, nossa capacidade de atenção e nosso desejo de estar juntos.
Quando passamos oito horas por dia sentados em frente a telas, realizando tarefas repetitivas, respondendo a demandas externas, estamos traindo nossas próprias necessidades e potencialidades. Não é à toa que a ansiedade e a depressão se tornaram epidêmicas.
Reencantar passa por perguntar: para que fomos feitos? O que meu corpo precisa para se sentir vivo? Quando foi a última vez que usei minhas mãos para criar algo? Pode ser desenhar, cozinhar, tocar um instrumento, trabalhar com madeira, escrever. Criar é o que nos diferencia e nos conecta com o fluxo da vida.
3 - Reconexão com as pessoas: a via da comunidade
Talvez nada disso seja possível sem uma reconexão profunda com as pessoas. O encantamento não acontece em isolamento. Ele emerge no encontro, na convivência, no fazer compartilhado, na construção de sentido que só existe no entre. A exaltação do individualismo como sinônimo de liberdade e independência tem nos afastado uns dos outros, enquanto o pertencimento, ainda que imperfeito e trabalhoso, segue sendo uma das experiências mais potentes de vitalidade.
Construímos vidas em que mal conhecemos nossos vizinhos, em que amizades são mantidas por mensagens rápidas entre compromissos, em que até mesmo nossas famílias se tornam mais uma demanda em agendas lotadas. Mas fomos feitos para viver em comunidade e florescemos quando estamos envolvidos com o ontro. Nosso cérebro evoluiu para reconhecer rostos, interpretar emoções, criar vínculos. Nossa saúde física e mental depende de conexões genuínas. Estudos de longo prazo mostram que a qualidade de nossos relacionamentos é o principal preditor de felicidade e longevidade.
Reencantar inclui recriar comunidade. Pode ser um jantar semanal com amigos. Pode ser criar um grupo de leitura, de caminhada, de artesanato. Pode ser simplesmente conversar com vizinhos, ajudar quem precisa, celebrar junto.
Contrafluxo
Para reencantar o mundo, é preciso ir na direção oposta ao fluxo frenético do desenvolvimento. É preciso sustentar perguntas, abrir frestas e desacelerar o pensamento dominante que nos arrasta por inércia e imaginar outras formas de estar no mundo.
Reencantar o mundo começa sempre por reencantar nossa própria vida e adotar o reencantamento não como fuga, mas como prática cotidiana de presença, relação e cuidado. Cada pessoa que faz essa escolha torna um pouco mais fácil para as próximas fazerem o mesmo.
O mundo já está encantado — sempre esteve. Ele pulsa em cada árvore, em cada nascente, em cada encontro genuíno entre pessoas. Só precisamos olhar com atenção.
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