Precisamos falar sobre a IA: Inteligência Ancestral
- Vivian Vianna
- 26 de jun. de 2025
- 5 min de leitura
A verdadeira inovação do nosso tempo virá com o reconhecimento do que nos torna humanos

Na bolha urbana em que vivo, para todo lugar que olho, as pessoas estão sempre com pressa. E sempre ansiosas, sedentas pelo que está por vir: "Como se antecipar ao mercado?", "Qual vai ser a próxima tendência?", "Como me preparar para o futuro?", "Como começar a fazer hoje o que todo mundo vai querer amanhã?", "Como inovar?".
O Novo. Estamos sempre em busca da novidade, do que nunca foi feito antes, do que surpreende porque ainda não existia. E temos uma propensão cada vez maior a relacionar o inovador com o que é tecnológico e o que é tecnológico com o que é digital, eletrônico, computacional, automatizado. No universo dos negócios, um tema muito presente nas rodas de conversa nos últimos anos foi a transformação digital. Mais recentemente, o termo IA first, que se refere à adoção de Inteligência Artificial pelas empresas, vem ganhando popularidade.
Só que a gente precisa lembrar que tecnologia é muito mais do que o que envolve computador. É o uso do conhecimento e o desenvolvimento de técnicas ao longo do tempo para resolver problemas ou atender a necessidades humanas. Isso inclui, também, os saberes tradicionais, como cerâmica, agricultura, tecelagem, cestaria, botânica e até astrologia (em sua origem comum à astronomia), que são sofisticados sistemas de conhecimento aplicados ao cotidiano.
Os povos originários desenvolveram tecnologias sociais extraordinárias: sistemas de tomada de decisão coletiva que consideram os impactos nas próximas gerações, práticas de manejo ambiental que sustentaram ecossistemas por milênios e muitas outras. Estas são tecnologias no sentido mais puro da palavra, mas porque não brilham em telas LED ou geram dados para análise, nós as ignoramos.
A Inteligência Ancestral
Algo que permeou o modo de vida e os processos de produção humanos por séculos e passou a ser negligenciado, principalmente a partir da Revolução Industrial, é o respeito aos ciclos naturais e ao tempo que as coisas precisam para ficarem prontas. Buscando acompanhar a velocidade das máquinas, passamos a valorizar apenas a rapidez do processamento, a capacidade de multitarefas, a otimização constante. Esquecemos que inteligência também é saber quando parar, quando refletir, quando deixar que as coisas amadureçam no seu próprio tempo.
Colocamos a Inteligência Artificial em um pedestal, mas nunca precisamos tanto buscar refúgio na Inteligência Ancestral. Ela é a sabedoria acumulada sobre como viver em harmonia com os ritmos naturais e as necessidades genuinamente humanas. Enquanto os algoritmos analisam dados, a Inteligência Ancestral dá sentido. Enquanto a lógica do mercado privilegia agilidade e escassez, a sabedoria tradicional reconhece ciclos, abundância e interdependência.
O Paradoxo da Velocidade
A aceleração tecnológica prometeu nos dar mais tempo, mas nos tornou cada vez mais atarefados. Nossos ritmos biológicos, desenvolvidos ao longo de milênios em sincronia com a natureza, entram em colapso quando submetidos à pressão constante da produtividade. O corpo humano não é adaptado para viver em modo "sempre ligado" como uma máquina – e mesmo elas precisam ser desligadas de tempos em tempos.
Há algo profundamente irônico acontecendo: enquanto criamos máquinas cada vez mais "inteligentes", tentamos nos tornar cada vez mais mecânicos. Medimos nossa produtividade em métricas, otimizamos nosso sono com aplicativos, transformamos relacionamentos em algoritmos. Na corrida pelo máximo desempenho, acabamos desejando capacidades nada humanas: responder sem pausas, aprender a cada segundo, prever resultados com precisão.
A epidemia de burnout é apenas o sintoma mais visível de uma alienação mais profunda: quando nos desconectamos dos ritmos naturais, ignoramos os sinais do corpo, desprezamos nossa intuição e aceleramos além de nossa capacidade emocional, o colapso é inevitável.
Então, até que ponto vale a pena nos tornar parecidos com as máquinas? Por quais valores prezamos quando priorizamos o tempo de máquina em vez do tempo humano?
O tempo que as coisas levam para ser
Existe uma beleza imensa na lentidão que passamos a desvalorizar. O vinho que leva décadas para chegar ao ápice do sabor, o trabalho manual feito com capricho vagaroso em momentos de introspecção ou ritual coletivo, o queijo que leva meses para chegar ao ponto certo, a cerâmica que exige camadas de paciência; a renda que carrega em que cada nó a história de quem a fez, a árvore que cresce por gerações até gerar uma sombra magnífica. Nada disso pode ser hackeado ou otimizado sem perder a essência. São processos mais profundos que nossa ansiedade por resultados imediatos.
Ao menosprezar o tempo do processo, passamos a buscar soluções em fórmulas de cinco passos, resultados de meditação em uma semana, relacionamentos profundos em alguns cliques. Essa pressa não é apenas ineficaz, ela é destrutiva. Quando aceleramos tudo, perdemos não só a capacidade de reconhecer ritmos naturais, mas de nos aprofundar e criar com densidade.
A Inteligência Ancestral reconhece que as coisas mais valiosas da vida precisam de tempo para existir. Que sabedoria não se baixa como um aplicativo, mas se destila através da experiência. Que comunidade não se forma em um evento de networking, mas se tece ao longo da convivência. Que tranquilidade não se alcança com técnicas de produtividade, mas amadurece na contemplação.
A revolução da desaceleração
Por isso, acredito que a verdadeira revolução do nosso tempo não será tecnológica, mas sim contemplativa. Será sobre desacelerar conscientemente para resgatar o que faz parte da natureza humana: o respeito aos ciclos, a capacidade criativa, a necessidade de criação de vínculos.
Mas como nos reconectar com a Inteligência Ancestral quando o mundo nos pede aceleração constante? Podemos começar reconhecendo que nem tudo precisa ser otimizado. Que há valor na lentidão, na aparente improdutividade da contemplação.
Podemos tentar criar espaços de silêncio em nossas agendas hiperconectadas. Praticar a arte perdida da conversa sem propósito específico. Caminhar sem destino, apenas para sentir o ritmo do corpo e apreciar o caminho. Podemos buscar práticas tradicionais: a meditação, não como técnica de produtividade, mas como forma de autoconhecimento, a jardinagem como escola de paciência, a culinária como ato de amor e criação. O movimento slow living emerge como uma das respostas – não se trata de preguiça, mas da compreensão de que existe um tempo natural para as coisas amadurecerem e se manifestarem plenamente.
Cultivar a paciência como resistência
Desacelerar tornou-se um ato de rebeldia numa cultura que mercantiliza cada segundo. Significa recusar a lógica da produtividade infinita e reconhecer que as coisas mais importantes da vida precisam de tempo para existirem. O resgate da Inteligência Ancestral não é nostalgia romântica, mas necessidade urgente numa época dominada pela ansiedade.
Além disso, em um mundo que muda na velocidade da luz, precisamos de raízes profundas para não sermos arrastados pela corrente. A Inteligência Ancestral nos ensina que somos parte de uma cadeia ininterrupta de sabedoria que atravessa gerações e, não só está diretamente conectada à natureza, como faz parte dela. Quando nos desconectamos dessa cadeia, ficamos condenados a repetir erros já superados.
Precisamos falar sobre Inteligência Ancestral porque ela nos lembra que somos mais que a soma de nossas produtividades e nos ensina a distinguir entre o urgente e o importante, percebendo que a maioria das coisas nem é tão urgente assim. Esta deve ser nossa pequena revolução diária: lembrar que, antes de sermos produtivos, somos humanos. E isso, por si só, já é extraordinário.
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