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Reimaginando sucesso: a nova lei escocesa que desafia a hegemonia do PIB

O Parlamento da Escócia acabou de fazer algo que talvez tenha passado despercebido, mas é um glitch gigante no sistema. Ao avançar para a terceira e última etapa de tramitação da Community Wealth Building Bill, consolidam um marco que pode redesenhar o conceito de progresso no século XXI. O que está em jogo é uma ruptura com quase um século de consenso econômico global, desafiando a hegemonia do PIB como métrica de sucesso.

A ideia é simples, mas radical: a lei exige que o crescimento do país seja inclusivo e sustentável, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Mais do que isso, reconhece explicitamente que riqueza financeira não pode ser separada de riqueza social, cultural, ambiental e comunitária. No fundo, a Escócia está forçando as instituições públicas a pararem de perguntar apenas "estamos crescendo?" para questionar: "a quem esse crescimento serve?".

Embora o texto tenha implicações técnicas, seu significado vai muito além. Ele sinaliza uma mudança de paradigma em um debate que vem ganhando força globalmente: crescimento econômico não é sinônimo de prosperidade social. Durante décadas, o PIB ocupou o centro das decisões políticas e empresariais, tratado como a régua suprema do progresso. O problema é que, ao somar produção e consumo sem considerar impactos sociais, ambientais ou territoriais, ele acabou se tornando eficiente para medir atividade econômica, mas profundamente limitado para avaliar qualidade de vida.

As quatro falhas estruturais do PIB

O PIB não falha só pelo que ele mede, mas pelo que ele decide, deliberadamente, ignorar., operando numa lógica que bate de frente com a vida real:


  • Não distingue construção de destruição. O PIB registra movimento econômico, não valor social. Ele soma gastos independentemente de sua natureza ou consequência. Um derramamento de óleo no oceano, por exemplo, aparece como algo "positivo" nas estatísticas, já que mobiliza recursos, contratos de limpeza e serviços emergenciais, enquanto o colapso ecológico fica fora da conta.

  • O truque das "externalidades": A economia moderna usa essa palavra técnica para descrever o que é empurrado para debaixo do tapete. Poluição, degradação de ecossistemas, adoecimento da população e perda de biodiversidade ficam de fora do balanço, criando a ilusão de eficiência e progresso. Se uma mineradora lucra destruindo uma montanha, o lucro é privado, mas o prejuízo ambiental é dividido com todos nós.

  • Indiferença à desigualdade: Ao focar em médias aritméticas, o PIB mascara a desigualdade social e trata a concentração de riqueza nas mãos de poucos como uma média satisfatória para todos, ignorando que o crescimento de um país pode coexistir com a precarização do trabalho e a exclusão sistemática de grandes parcelas da população. 

  • A fantasia do infinito: Talvez o erro mais bizarro seja achar que crescer para sempre num planeta que tem limite é possível e desejável. Em uma biosfera com limites físicos claros, a busca por um crescimento sem fim é uma contradição matemática. É como acelerar um carro em direção a uma parede e celebrar o aumento da velocidade. 


Outras formas de medir o que importa

O movimento escocês não surge no vácuo. Países como Nova Zelândia, Canadá e Butão vêm experimentando métricas alternativas ao PIB, incorporando indicadores de bem-estar, saúde mental, coesão social e sustentabilidade ambiental em suas políticas públicas. O que diferencia a iniciativa escocesa é a tentativa de transformar esse debate em obrigação legal, não apenas em diretriz política sujeita a mudanças de governo.

O Butão, ainda nos anos 1970, propôs algo que soava quase herético: a Felicidade Interna Bruta. Em vez de medir apenas produção, passou a observar saúde, educação, uso do tempo, vitalidade comunitária, diversidade cultural, qualidade da governança, resiliência ecológica e bem-estar psicológico.

Como resultado, mesmo com renda per capita baixa, o país apresenta altos índices de felicidade, dobrou a expectativa de vida da população, preservou mais da metade de seu território como área ambiental e se tornou um país carbono negativo. 

A pergunta que orienta a política pública ali não é “quanto crescemos?”, mas “as pessoas estão vivendo melhor?”.

Outras iniciativas seguem caminhos semelhantes. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) incorpora saúde e educação além da renda. Indicadores de bem-estar consideram equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, acesso à natureza, qualidade das relações sociais. Métricas de saúde ecológica avaliam a capacidade dos ecossistemas de continuar sustentando a vida. Todas elas reconhecem que economias existem dentro de sociedades, que existem dentro de ecossistemas — não o contrário.


Aprendendo com a Escócia

Ao redefinir crescimento como meio, e não como fim, a Escócia oferece um contraponto poderoso às narrativas dominantes. A lógica da nova lei é clara: alinhar gastos, investimentos e desenvolvimento a resultados sociais desde o início. Não se trata de caridade depois do lucro, nem de correção depois do dano, mas de desenho intencional.

Municípios que já aplicaram princípios do Community Wealth Building registraram melhora no bem-estar mental, redução da desigualdade, fortalecimento de economias locais e maior engajamento comunitário. Não é utopia. É prática.


E as empresas nisso tudo?

É impossível olhar para esse debate sem trazê-lo para o mundo corporativo. A lógica que domina países também governa organizações. Crescer virou sinônimo de sucesso e não crescer é quase um fracasso moral. A pergunta raramente é se esse crescimento faz sentido, mas apenas como alcançá-lo mais rápido.

O resultado são pessoas trabalhando até a exaustão para bater metas cada vez mais agressivas e decisões que sacrificam o longo prazo em nome do próximo trimestre. O burnout está deixando de ser exceção e virando regra. Trabalha-se mais, produz-se mais, mas a sensação de vazio só aumenta.

Por que crescer é sempre melhor do que ser suficiente? Desde quando estabilidade virou sinônimo de mediocridade? Talvez valha perguntar se faz sentido exigir números sistematicamente maiores de sistemas que lidam com pessoas reais, corpos reais e limites muito concretos.

Mas e se empresas também começassem a medir sucesso de outra forma? Se olhassem realmente para a qualidade de vida de quem trabalha ali, para o impacto nos territórios onde operam, para a sustentabilidade real de seus modelos de negócio?

Não se trata de romantizar ou dizer que empresas não precisam de lucro. Mas lucro não precisa — e nem pode — ser o único objetivo. Empresas prósperas podem (e devem) tratar pessoas com dignidade e cuidar do ecossistema. 

Algumas já estão experimentando esse caminho. Empresas B, organizações orientadas por propósito e casos como a Patagonia mostram que lucro não precisa ser o único norte — e certamente não precisa ser infinito. Empresas assim tendem a ter pessoas mais engajadas, menos rotatividade e maior capacidade de atravessar crises.

No fim das contas, não é só economia

Se pensarmos bem, tem algo profundamente estranho em uma civilização que mede progresso apenas por produção e consumo. A ideia de que mais é sempre melhor, de que crescer é obrigatório e de que quem não expande está falhando é só isso: uma narrativa. E narrativas podem mudar.

O Community Wealth Building Bill ainda precisa de aprovação final, mas o sinal já foi dado. Governos podem escolher medir e priorizar outras coisas. Países podem definir sucesso de formas mais humanas. Empresas podem prosperar sem explorar até o limite.

Talvez o futuro não esteja em crescer indefinidamente, mas em aprender a construir uma prosperidade que caiba no planeta — e na vida das pessoas.

O que falta é mais gente disposta a questionar o óbvio, a desafiar o "sempre foi assim", a perguntar se não existe um jeito melhor de fazer as coisas. Quando o modelo econômico deixa de ser teoria e passa a ser lei, o sinal é claro: a era do crescimento pelo crescimento está perdendo fôlego, e o futuro pertence àqueles que souberem projetar uma prosperidade que realmente caiba dentro do mundo e dentro da vida humana.

 
 
 

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