A ironia da inovação sem imaginação
- Vivian Vianna
- 29 de jan.
- 4 min de leitura
Da estética polida ao retorno do humano: a “garota estranha da escola de arte” sinaliza uma virada cultural que tem a ver com criatividade, tecnologia e futuro

Depois da onda de perfeição das estéticas "quiet luxury" e "clean girl", que dominaram passarelas e viralizaram nos feeds nos últimos anos, a previsão da diretora criativa Elysia Berman é de que a vibe de 2026 terá muito mais a ver com a imagem da "weird art school girl", ou garota estranha de escola de arte. E isso não tem a ver só com moda. Ela atravessa comportamentos, valores e formas de estar no mundo. Afeta o modo como consumimos, trabalhamos, criamos e nos relacionamos com o tempo livre.
Berman cita a popularidade repentina de Rama Duwaji, a nova primeira-dama de Nova York — uma artista, ilustradora e animadora com um estilo pessoal autêntico e cheio de personalidade. A diretora criativa, que antecipou em 2024 que as tendências de moda da época indicariam a vitória de Donald Trump nas eleições, já que a adoção de estilos conservadores geralmente aponta a volta de valores conservadores, quando o conservadorismo claramente não está funcionando, o pêndulo segue para o lado contrário.

Não é coincidência que essa virada aconteça exatamente quando a inteligência artificial finalmente consegue gerar imagens indistinguíveis de fotografias reais e a automação começa a substituir trabalhos criativos, quando passamos a conversar com chatbots que simulam empatia com precisão assustadora. Quanto mais a tecnologia avança em sua capacidade de replicar a aparência de humanidade, mais desesperadamente buscamos sinais autênticos dela. E esses sinais vêm acompanhados da imperfeição, da singularidade irreproduzível, da marca única que cada pessoa deixa nas coisas que toca e transforma.
Na moda, isso se traduz em roupas descombinadas, cabelos bagunçados, unhas imperfeitas: tudo o que é símbolo de uma vida bem vivida e tempo bem gasto. Em vez de looks impecavelmente montados, entram combinações que parecem um mix de todos os lugares pelos quais alguém já viajou, criando um estilo que conta uma história e um nível de bom gosto que revela repertório e anos de estudo.

Mas, se tem algo que aprendi estudando moda, é que ela nunca é somente sobre roupas e aparência. O que interessa nesse movimento não é a estética de garota estranha em si, mas o que ela nos diz sobre as contradições que atravessam, neste momento, nossa relação com criatividade, originalidade e valor cultural. A tendência revela uma sociedade que começa a perceber o custo de ter tratado as ciências humanas como acessório por décadas. Enquanto áreas técnicas eram exaltadas como únicas produtoras de valor, o pensamento crítico, simbólico e imaginativo foi sendo empurrado para a margem. Agora lidamos com as consequências dessa escolha.
Existe uma ironia dolorosa nisso tudo: desejamos os produtos da imaginação treinada, mas desprezamos o investimento necessário para cultivar essa imaginação. Queremos a inovação que vem do pensamento lateral, mas estruturamos sistemas educacionais e corporativos que recompensam exclusivamente o pensamento linear e quantificável. Buscamos originalidade, enquanto padronizamos trajetórias, formações e modos de pensar.
A transformação da estética "art school girl" em tendência a ser consumida é um sintoma visível de um fenômeno muito maior: vivemos em uma cultura que devora símbolos de criatividade enquanto sistematicamente desvaloriza a criatividade em si. Compramos a aparência da originalidade enquanto construímos sistemas que punem quem ousa pensar diferente. Celebramos a inovação enquanto fechamos os caminhos que levam até ela.
Empresas investem milhões para parecerem autênticas, para capturar a essência de movimentos contraculturais, para traduzir linguagens visuais que nasceram da margem — mas frequentemente fazem isso sem entender ou valorizar os processos de pensamento que geraram aquelas manifestações estéticas. É como querer colher os frutos de uma árvore cujas raízes estamos sempre tentando secar.
O que acontece quando uma sociedade quer parecer criativa sem cultivar criativos? Acabamos com tendências que morrem em três meses. Quando quer inovação sem permitir experimentação? Temos marcas que soam todas iguais apesar de tentarem desesperadamente parecer únicas. Quando deseja autenticidade produzida em escala industrial? Produzimos cópias de cópias até esvaziar qualquer sentido original.
O que muda a partir de agora
Saturados por uma enxurrada de coisas sem profundidade e sentido, tudo indica que nos próximos anos desejaremos voltar a criar, e não apenas consumir. Vamos querer desenhar, escutar discos, escrever e aprender com as mãos. Acima de tudo, vamos nos contrapor à total digitalização da sociedade.
"Nesse momento, precisaremos de pessoas que sejam pensadoras, que desafiem o status quo, que tenham ideias inovadoras que não sejam geradas pelo ChatGPT", diz Berman. "Vamos precisar de artistas, de apaixonados, de sonhadores. Vamos querer ter discussões sobre ideias, filosofia, arte e cultura. Não vamos nos contentar com a regurgitação de mesmices. Iremos valorizar pessoas inspiradoras, que não tenham medo de serem um pouco estranhas e um pouco diferentes."
Para líderes e gestores, essa virada significa repensar desde processos de contratação até métricas de sucesso. Talvez seja hora de valorizar menos o encaixe perfeito e começar a contratar justamente quem pensa diferente. De dar espaço para experimentação e aceitar que algumas das ideias mais valiosas surgem justamente onde não há garantias imediatas de retorno. De entender que diversidade não é pauta de RH, é estratégia de negócio.
A tal "garota esquisita da escola de arte" representa uma forma de pensar que precisamos urgentemente aprender a valorizar. O espírito do tempo atual tem a ver com menos perfeição e mais autoria, menos polimento e mais originalidade. Menos estética de vitrine, mais experimentação de ateliê. Um retorno ao humano não como discurso, mas como prática visível nas escolhas e nas narrativas que não precisam gritar para existir.
Num tempo em que tudo pode ser replicado, o que carrega a marca de quem fez volta a ser raro. E, justamente por isso, profundamente valioso. A questão não é se vamos resistir à automação. É se vamos realmente valorizar o que nos torna humanos antes que seja tarde demais para cultivar essa humanidade.
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