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Turismo rural e farm hospitality são o novo luxo. Mas será que deveriam ser?

Porque o contato com a natureza não deveria ser um privilégio


Um dos novos marcadores de status, ao lado da vida relaxada e sem pressa e da performance do bem-estar, é a possibilidade de contato com a natureza. Com o colapso da eficiência urbana, as cidades estão deixando de ser um lugar de oportunidades para se tornarem drenos de energia. Ao mesmo tempo, cada vez mais pesquisas comprovam os benefícios de se estar entre as árvores.



Estudos da Universidade de Stanford mostram que a presença da natureza no campo visual aumenta em 20% a capacidade de foco sustentado. O cérebro processa informações mais rápido, toma decisões com mais clareza e resolve problemas complexos com mais eficiência quando está com verde por perto.


Mexer na terra também melhora a saúde. A Mycobacterium vaccae, bactéria encontrada no solo, é estudada por suas propriedades imunomoduladoras. Pesquisas indicam seu potencial para reduzir ansiedade, melhorar a cognição, aliviar inflamações alérgicas e reduzir estresse.


Eu quero uma casa no campo

O êxodo urbano é mais comum em Países de Alta Renda, onde a infraestrutura tecnológica permite o trabalho remoto, mas, no Brasil, o movimento também acontece. Dados do último Censo do IBGE 2022, mostraram perda de população em grandes capitais: no Rio de Janeiro, a perda foi de quase 2% de população, Belo Horizonte (-2,5%), Recife (-3,2%), Porto Alegre (-5,4%) e Belém (-6,5%).


No entanto, nem todos têm a possibilidade de deixar totalmente a vida na cidade. Isso tem gerado uma demanda crescente pelo turismo rural, ou farm hospitality, levando ao surgimento de hospedagens que se posicionam como fazendas hotéis, em vez de hotéis fazenda. Apesar da troca de ordem das palavras ser singela, representa uma significativa mudança de posicionamento. O que oferecem, em vez de uma estadia passiva, com o ambiente bucólico como cenário, são experiências que prometem conectar os hóspedes com a terra e com a vivência na roça, passando o tempo não apenas como observadores, mas colocando a mão na massa.


Elas aplicam técnicas regenerativas e de agroecologia em seus ecossistemas e algumas têm certificação biodinâmica. Borgo Santo Pietro, na Itália, Finca La Donaira, na Espanha, Southall Farm e Blackberry Farm, nos EUA, e Babylonstoren, na África do Sul, são alguns deles. Quem frequenta, paga caro para colher os vegetais orgânicos que serão servidos no próprio jantar, coletar as ervas medicinais que serão usadas no SPA, produzir seu próprio azeite e saber exatamente de onde vem sua comida. É a união entre alimentação saudável de qualidade, conexão com a natureza e um ritmo mais lento e aterrado.


Assim, o campo deixa de ser lugar de simplicidade e passa a ser cenário de experiências premium. A estética casual, com mesa de madeira rústica, horta imperfeita e pão de fermentação natural, é cuidadosamente dirigida.


Porém, isso cria uma camada de escapismo que merece cuidado. O risco é transformar a vida rural em mais uma mercadoria, em cenário instagramável que exotiza e romantiza realidades complexas. Quando o rural vira produto de performance, abre-se espaço para formas de turismo predatório que instrumentalizam territórios, saberes e modos de vida. Comunidades locais podem virar pano de fundo para narrativas de reconexão que pouco as beneficiam, quando às reduzem prestadores de serviço para uma elite urbana em busca de autenticidade fabricada. A experiência se sobrepõe à relação, vira produto, e o campo vira décor.


Por outro lado, não podemos negar o potencial educativo dessas experiências. A exposição a outras realidades, quando conduzida com respeito e troca justa, pode ampliar repertórios, educar sensibilidades, relativizar certezas urbanas e até gerar consciência sobre sustentabilidade, desigualdades, e modos de viver alternativos. Ver outros ritmos de vida em funcionamento continua sendo uma das formas mais potentes de deslocamento de consciência. A questão não é se essas experiências têm valor, mas como são construídas e consumidas.


A biofilia urbana como direito, não privilégio

Para que os benefícios da natureza não se tornem um luxo restrito a quem pode pagar por estadias exclusivas, é necessário repensar também a restauração do verde às cidades e a criação de áreas públicas com acesso democrático.


Cidades como Singapura, com sua política de “Cidade em um Jardim”, e Medellín, com seus “Corredores Verdes” que reduziram a temperatura urbana e devolveram espaços de lazer à população, demonstram que o investimento em biofilia urbana é uma questão de saúde pública e equidade social. Ao criar florestas de bolso, parques lineares e hortas comunitárias, o poder público garante que o deslocamento de consciência proporcionado pelo verde seja acessível a todos, e não apenas uma mercadoria premium de escapismo.


A oportunidade e o desafio para marcas, destinos e experiências é criar espaços que permitam às pessoas realmente vivenciarem, não apenas performarem. Mas cuidado: no momento em que o contato com a natureza é mercantilizado, arrisca-se a transformá-lo em mais uma coisa a otimizar.


A indústria do bem-estar já cometeu esse erro.

 
 
 

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